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A Fada do Bigodão

Luíza, deitada na cama, encarava o teto salpicado de estrelinhas adesivas cheias de glitter. O quarto tinha sido decorado quando ela tinha oito anos. Na época, fazia sentido. Agora, ela tinha trinta e seis, e os pontinhos brilhantes tinham sido ressignificados por uma vida de insucessos. Cada estrelinha era como um sonho morto.

Dezessete Graus

Ana enlouquecia com o ar condicionado, ou melhor, com a falta dele. O apartamento de uma única e estreita janela a fazia andar quase nua. Era isso ou a combustão. Escolheu gastar as economias no concerto, a outra opção seria gastá-las inventando motivos para se ausentar do pequeno forno ao qual chamava de lar, mas sairia mais caro.

Inveja (dos contemporâneos) mata

Sinto-me pouco contemporâneo, cheguei a essa conclusão. Passei um tempo pensando sobre a natureza desse sentimento e percebi o abraço apertado que ainda me prende ao passado. Consegui entender melhor o motivo de eu gostar tanto de ambientar meus textos cinquenta, sessenta anos atrás, sem celulares, sem internet, e a uma distância confortável e analítica dos fatos. Eu estou desligado do hoje, do agora, pelo menos em parte.

Principezinho

Quando, pela primeira vez, soube do principezinho inquirindo por carneiros, me encantou a suavidade. Vi ali, reverberada em cabelos de trigo, a marca forte da infância, o dom que é carregar olhos ingênuos.

Olhos que perdemos cedo, com a obrigação soturna de vivermos expulsos do éden da nossa própria história. Relegados. Capturados pelo envelhecer das ternuras e das carnes. Terrivelmente embrutecidos pelo hostil.

Despenca sobre nós uma realidade árida e impiedosa, que comprime o que somos com a força de mil atmosferas até só restar um grão de arroz vermelho sangue. Nos circunscreve o espírito. Dali não saímos mais, já não é possível.

Então, os olhos do principezinho se fecham em nós. Adiante, o turvo da segunda vista, castigada em excessos, nos impede de ver a perfeição dentro da caixa, o elefante dentro da cobra. Transforma o mundo inteiro em uma loja de chapéus.

J de Jemido

Jota revirou-se na cama, transbordando de auto piedade. Tentava expor ao mundo a terrível moléstia da qual padecia, mas fracassava em convencer até a si mesmo. O rosto se iluminava, intermitente, com a luz da tela do celular. Não tinha forças pra começar nada, tão pouco conseguia deixar de responder a cada tremida ou apito de comando do aparelho.

Consumido

Me esvaí. Poderia parar aqui, nessa síntese honesta de todo o resto. Mas acabarei por elaborar, pelo bem de ninguém. Para me ocupar um instante, para me comprar tempo.

O fogo que mora dentro não mora. Ou melhor, mudou-se, partiu e não deixou endereço. Tudo está morno, naquela réstia de calor que fica após a brasa apagar.

Depois, o cinza frio tomará conta. Vai ficar ali um tudo a mesma coisa, um resto de restos. Daquilo que foi, não restará nada além do sentimento de ter sido.

Onde ninguém jamais esteve

A Nemo saiu de dobra num solavanco e todos os alarmes começaram a soar. Os sensores indicavam uma ejeção de massa coronal. A gigante vermelha que os havia chutado para fora do hiperespaço agora atraia a nave com seu campo gravitacional imenso. Os motores de empuxo estavam no limite, mas a nave continuou desacelerando até parar, então passou a mover-se em direção a estrela.

Empachado

Sou do interior, mas nunca fui do interior. Nunca tive em mim as qualidades do habitante do sertão. Sempre detestei jambo, graviola, seriguela e chuva; uma heresia atrás da outra. Sem contar que sou frouxo, tenho medo de bicho e sou pouco afeito ao confronto. Não obstante tudo isso, nasci lá, e sempre me perguntei se isso bastava para me declarar sertanejo.

Depiladora e Pedicure

Os irmãos tiveram de atravessar a cidade inteira para chegar no local da demanda. Busão lotado, foi o que deu pra fazer. De tão baixa que era a recompensa, se fossem pagar um uber ficariam no prejuízo.

— Cleiton, vai se adiantando aí que a gente desce na próxima.

— Cara, acho que não vai dar não. Tô mal conseguindo respirar aqui e tu quer que eu me mexa?

— Bora, Cleiton, deixa de graça! Senão, tu sabe como tá lá em casa, tem nem pra janta hoje.

— Tá certo — Cleiton suspirou. — Senhora, leva mal não, mas vou ter que dar uma forçadinha aqui pra passar. Com todo respeito aí, beleza?

Infalível

Era uma profecia, a tradução indicava o fim do mundo pra dali a dois dias. Rogério tirou os óculos e coçou a barba. Quatorze meses metido no meio da floresta, calor, mosquitos do tamanho de um boeing, malária, bolsa atrasada. Ele tinha superado tudo na esperança de encontrar um artefato realmente significativo, algo para provar a diversidade cultural dos Yatan em relação ao resto das Américas. E agora, a grande descoberta era uma cópia mal engendrada das profecias de apocalipse Maias.