Leopoldina em tradução livre

Esse texto finalista no concurso Cuéntame un Cuento, da Universidade de Salamanca, em 2022. Não ganhei, mas gosto muito dele.

Meu amor, tô morrendo de saudade. Essas cartas demoram uma vida pra ir e voltar, isso tá me deixando louca. Mas que jeito, né? Pelo andar da carruagem, não vou poder te ver tão cedo. O imbecil do Pedro anda cabreiro. Até com o Bonifácio, que praticamente mora no palácio, deu pra implicar. Na cabeça dele, todo mundo tá só esperando a chance de comer a mulher dos outros, como ele mesmo faz. O mais engraçado é, pelo menos desta vez, ele ter algum motivo. Hahaha.

Bom, tenho uma boa notícia: agora não tem mais perigo imediato de eu ter de voltar pra Europa. Com certeza, você já sabe sobre a palhaçada do Dia do Fico, só se fala disso em todo lugar. Todo mundo comentando como o Pedro é corajoso, como desafiou a Coroa portuguesa, que é muito apegado ao Brasil e etc. Só quem nunca trocou uma palavra com ele pra acreditar nessas baboseiras.

Na verdade, me deu muito trabalho pra convencer aquele idiota a ficar aqui. E não fui só eu, tive de fazer boa parte da fidalguia acreditar que valia a pena pra eles também. Como eu não posso simplesmente chamar qualquer um pra conversar, porque, enfim, princesa regente e tal, sou obrigada a fazer tudo por baixo dos panos, e isso complica ainda mais. O Cadolino, coitado, passou uns sete dias no mundo só entregando carta minha. Graças a Deus, um monte de gente buzinando no ouvido do Pedro deu resultado.

O Bonifácio também ajudou, falou com umas pessoas da Corte, povo com quem eu não tenho muito contato. Ele não dá ponto sem nó, com certeza fez pensando em ter mais poder de decisão no futuro, pois o Pedro terceiriza quase tudo e só se emprega em zanzar daqui pra São Paulo, pra ir atrás daquela vadia da Domitila.

Não que eu ache ruim, longe de mim. Quanto mais tempo ele ficar fora de casa, melhor. Fica mais fácil de dar um perdido nas fofoqueiras da Corte e ir te ver. Tô aqui no quarto, suando debaixo das anáguas, pensando nesse teu corpo queimado de sol. Ai, ai, mas eu não vou entrar nesse assunto, senão fica difícil terminar a carta. Hahaha.

Enfim, por enquanto vou ficar, mas tenho medo do Pedro mudar a cabeça a qualquer momento, volúvel como ele é... Então, eu tive uma ideia louca e quero te contar. Se der certo, vai resolver pra sempre essa ameaça de ter de sair do país. A confusão em Portugal tá grande. Depois da tal da revolução do Porto, tão cortando as asinhas do João com uma constituição pra tirar poder do rei. No meio de tudo isso, pode ser o momento ideal pra deixar de ser explorado por Portugal. Isso mesmo, tô falando de independência, meu bem.

Lógico, o negócio de deixar de ser explorado é só desculpa. Eu quero lá saber se fidalgo tá ganhando ou perdendo dinheiro no Brasil. Só quero garantir que vou ficar aqui, perto de você. Eu sei, tô jogando alto, e sei do perigo disso tudo também, mas eu não aguento mais ficar nesta aflição. Vou te contar meu plano. A gente combinou de você sempre destruir as cartas, mas esta aqui tem de fazer desaparecer mesmo, não pode ficar nem rastro. Só nós dois sabemos dessas ideias, por enquanto.

A primeira coisa, e já comecei a fazer isso, é dar uma aparência de nação na Europa. Andei mandando umas cartas pra uns conhecidos em várias cortes, pra minha irmã na França, pro meu pai, pra uns amigos na Espanha. Eu comecei a diferenciar brasileiro de português, ou seja, ao falar de gente nascida aqui, eu trato por brasileiro, assim vai entrando na cabeça deles o fato do Brasil não ser Portugal.

Também andei pegando umas conversas por aí (tenho minhas fontes), e os ingleses tão bastante interessados no Brasil. Também, pudera, né? Um monte de gente aqui. Se esse povo for obrigado a voltar a comprar só de Portugal, vai ser uma perda enorme de mercado pra eles. O adido inglês no Rio não é flor que se cheire, mas se finge de amiguinho de todo mundo pra agradar, então eu vou aproveitar isso.

Ninguém fala muito desse assunto fora da Corte, mas algumas capitanias já tão desafiando o controle de Portugal. Isso vai ser um problema. Normalmente, o Pedro deixaria essa batata quente pro pai dele resolver, mas, se a gente for declarar independência mesmo, tenho de ir logo pensando sobre isso, senão o futuro grande império do Brasil vai se espatifar num monte de territórios menores, e vamos perder o controle como os espanhóis perderam das colônias deles.

Os ingleses podem ter alguma utilidade aí também. Nossas tropas não são suficientes pra sufocar essas rebeliões. Se tem uma coisa sobrando na Inglaterra, é mercenário, tanto no sentido literal quanto no figurado. O negócio é fazer um acordo tomando cuidado pra não deixar de ser colônia de um país europeu e passar a ser colônia de outro, se é que você me entende.

Mas, mesmo se toda a fidalguia apoiar, não sei se o Pedro vai comprar a ideia. Por mais burro que ele seja, é esperto o suficiente pra perceber o risco de declarar independência. Se não der certo, ele pode ficar sem império e ainda perder o direito à Coroa portuguesa. Ele sempre confiou na possibilidade de, dando tudo errado, voltar pra reinar em Portugal. Por isso, vive arrotando coragem e peitando todo mundo.

Enfim, vou começar a me mexer. Pedro tá planejando uma viagem a São Paulo, tem umas instabilidades políticas rolando por lá, e ele vai ver se consegue apaziguar. Inclusive, essa é a desculpa perfeita pra ele ir passar um tempo na cama daquela criatura sem gerar falatório. Vou aproveitar os dias de ausência dele pra te ver, mando Cadolino avisar assim que o futuro grande imperador passar pelo portão.

Infelizmente, não posso ficar muito por aí, vou ter de voltar rápido pra organizar as coisas. Considerando a possibilidade do Pedro não ter coragem de assinar a independência, tô pensando em eu mesma assinar quando ele estiver ausente. Com o fato consumado e a nobreza apoiando, fica difícil de ele voltar atrás, passaria recibo de covarde. Tenho de me despedir agora, mas fique pensando em mim, e estes dias vão passar rápido. Vou bater aí, na sua porta, quando você menos esperar (e sem ceroulas, hahaha).

Te amo, Maria Leo.